|
|
|
O BOITATÁ
Antigo mito brasileiro cujo nome significa "coisa de fogo", em tupi. Já
referido por José de Anchieta em 1560, o boitatá é um gênio protetor dos
campos: mata quem os destrói, pelo fogo ou pelo medo. Aparece sob a forma de
enorme serpente de fogo, na realidade o fogo-fátuo, ou santelmo, do qual emana
fosfato de hidrogênio pela decomposição de substâncias animais.1O
Boitatá é o gênio que protege as campinas e sempre castiga os que põem fogo
no mato.
Quase sempre
ele aparece sob a forma de uma cobra muito grande, com dois olhos enormes, que
parecem faróis. Às vezes, surge também com a aparência de um boi gigantesco,
brilhante.

Fazia bastante tempo que havia anoitecido. As pessoas estavam apavoradas,
pensando que o dia não voltaria mais. E como a noite estava durando muito, tudo
ficou desorganizado. Não havia mais carne. As colheitas não podiam ser feitas
no escuro e ficaram perdidas. Todos estavam cansados da escuridão, daquela
noite estranha, onde não brilhavam a lua nem as estrelas, onde não se ouvia um
rumor, nem se sentia o cheiro dos pastos e o perfume das flores.
Tão grande
era a escuridão, que as pessoas tinham medo de se afastar e não encontrar mais
o caminho. Ficavam reunidas em volta das pequenas fogueiras, embora as brasas,
cobertas de cinza, mal esquentassem... Ninguém tinha coragem sequer para soprá-las,
tão desanimados estavam todos.
Não muito
longe, numa gruta escura, vivia a Boiguaçu - a Cobra Grande - quase sempre a
dormir. De tanto viver no escuro, seus olhos tinham crescido e ficado como dois
faróis.
No início da
longa noite, caiu uma chuva tão forte e seguida, que todos os lugares baixos
foram inundados. Os bichos atingidos correram, aos bandos, para os lugares mais
altos. Só se ouviam berros, pios, gritos. O que salvou as pessoas foram as
fogueiras que, então, havia sido acesas. Não fosse isto, não teriam
sobrevivido diante daquela multidão de bichos apavorados.
A água também
invadiu a gruta onde morava a Boiguaçu. Ela custou muito para acordar e quase
morreu afogada. Por fim, despertou; percebendo o perigo, deixou o esconderijo e
seguiu para onde já estavam os outros bichos.
Diante da
necessidade, todos acabaram ficando amigos: perdizes, onças, cavalos.... Menos
o Boiguaçu. O seu mau gênio não lhe permitia conviver com os outros. Ficou de
lado, o mais longe possível.
A chuva
cessou, mas com a escuridão que fazia, os bichos não conseguiram encontrar o
caminho de volta. O tempo foi passando e a fome apertando. Começaram as brigas
entre eles. Brigavam às escuras, sem enxergar nada! Somente a Boiguaçu
via tudo, com seus olhos de fogo.
Acontece que,
se os outros animais sentiam fome, a Boiguaçu também andava com o estômago no
fundo. Só não havia atacado por causa da grande quantidade de animais.
Se a cobra podia ficar muito tempo sem comer, os outros bichos já não podiam
mais.
Ela percebeu
isso e viu que era chegada a hora. Preparou-se, então, para o ataque. O que
comeria em primeiro lugar? Um cavalo? Uma onça? Uma perdiz? Eram tantos, que
ela nem sabia.
Os bichos têm
preferência por determinada coisa. A Boiguaçu gostava especialmente de comer
olhos. Como era grande a quantidade de animais que ela podia atacar,
naturalmente ia ficar satisfeita comendo apenas os olhos.
O animal que se
encontrava mais perto era justamente uma enorme onça pintada. A Boiguaçu
atacou-a. Fosse em outra ocasião e a onça não teria sido presa tão fácil, não!
Porém, enfraquecida pela fome e cega pela escuridão, ela nem reagiu. A Boiguaçu
matou a onça e comeu-lhe os olhos.
Logo depois,
atacou outros animais. Mas só comia os olho.
Gostou tanto que não
fazia outra coisa. Ou melhor: também dormia. Quando estava satisfeita,
recolhia-se num canto e dormia, dormia.... Depois, quando a fome voltava, ela
retornava ao seu trabalho de matar os companheiros.
Como sua pele era
muito fina, ela começou a ficar luminosa, com a luz dos inúmeros olhos
engolidos. Os que viram a cobra não reconheceram mais a Boiguaçu e pensaram
que fosse uma nova cobra.
Deram-lhe, então,
o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo, nome muito apropriado, pois
realmente ela era uma grande listra de fogo, um fogo triste, frio, azulado.
A partir de então,
as pessoas não tiveram mais sossego. Viviam com medo de ser atacadas pelo
monstro. Do jeito que ele andava matando os bichos, logo necessitaria atacar as
pessoas.
Entretanto, tiveram sorte. A preferência do Boitatá foi a sua própria perdição.
Só comia olhos e,
assim, foi ficando cada vez mais luminoso e mais fraco, também, pois os olhos não
sustentavam, embora lhe satisfizessem o apetite. Tão fraco ficou que acabou
morrendo, sem conseguir sequer sair do, lugar!
O monstro morreu,
mas a sua luz esparramou-se pelos brejos e cemitérios e hoje pode tomar a forma
de cobra ou de touro. Parece que, por castigo, o Boitatá ficou encarregado de
zelar pelas campinas.
Logo que ele
morreu, o dia surgiu outra vez. Foi uma alegria enorme. As pessoas voltaram a
sorrir e as aves, a cantar. Tudo, enfim, voltou a ser como era antes.2
1. Sociedade e Cultural - Enciclopédia Compacta Brasil -
Larousse Cultural - Nova Cultural - 1995
2. Histórias e Lendas do Brasil (adaptado do texto
original de Gonçalves Ribeiro). - São Paulo: APEL Editora, sem/data
Ilustração de J. Lanzellotti
|