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FOLIA DE REIS E REISADO
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FOLIA
DE REIS - Sagarana (Extraído do CD Sertão Ponteado, de Roberto Corrêa)
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Durante 12 dias, a
partir do natal - até 6 de janeiro-, o Alferes da Folia, chefe dos foliões,
pode bater à sua porta a qualquer momento, de manhãzinha, seguido dos palhaços
do Reisado e de seus instrumentos barulhentos.
Vai despertar quem
estiver dormindo, pedir pemissão para entrar, tomar café e recolher dinheiro
para a Folia de Reis, uma festa popular de origem portuguesa que ainda sobrevive
em cidadezinhas brasileiras. Vai oferecer uma bandeira colorida, enfeitada com
fitas e santinhos, enquanto, do lado de fora, os palhaços vão dançar ao som
do violão, do pandeiro, do cavaquinho, recitando versos.
Esta festa
comemora o nascimento de Cristo. Seu enredo lembra a viagem que os três reis
magos - Baltazar, Belchior e Gaspar - fizeram a Belém para encontrar o Menino
Jesus. Os palhaços, vestidos a caráter e cobertos por máscaras, representam
os soldados do rei Herodes, em jerusalém. Os foliões abrem alas com uma
bandeira, que - dizem!- é abençoada e protege das más influências.
Depois de 12 dias de jornada, o dinheiro arrecadado é gasto em comes e bebes
para todos.
O Reisado é uma das pantomimas
folclóricas mais ricas e mais apreciadas, principalmente no Nordeste. Faz parte
do repertório das Festas Jesuínas, e é apresentado de 24 de dezembro a 6 de
janeiro, isto é, pelo Natal, Ano Bom e Reis.
É formado por um
grupo de foliões, de pastores e pastoras que se reúnem numa espécie de
rancho, com o fim de visitar as casas das pessoas mais gradas e hospitaleiras da
região, a cantar e a dançar.
O reisado
apresenta diversas modalidades e compõe-se de várias partes:
a) abrição da porta; b) entrada; c) louvação ao Divino; d) chamadas do rei;
e) peças de sala;
f) danças; g) a guerra; h) as sortes; i) encerramento da função.
Tem como principais personagens: o rei, o mestre, o contramestre, Mateus,
Catarina, figuras e moleques.
Indumentária:
Rei - culote até
os joelhos, terminado por franjas, blusa de cetim de cor diferente com mangas
compridas; no peito, espelhinhos; manto de cetim dourado que cai até os
joelhos; coroa de ouro, cetro.
Mestre - chapéu
de palha, forrado de cetim, de aba dobrada na testa (como usam os cangaceiros)
adornado com muitos espelhinhos, bordados dourados e flores artificiais; da
parte não dobrada da aba pendem fitas compridas de cores variadas, saiote de
cetineta até a altura dos joelhos, de cores vivas, com grega de galões largos;
por baixo saia branca, com dois ou três babados; blusa, peitoral e capa.
Contramestre - idêntica
à do Mestre, porém menos pomposa.
Mateus - paletó e
calça de brim com placas de remendos, alpercatas de couro cru, chapéu de palha
enfeitado com espelhinhos e franjas, penduricalhos ao peito, como se fossem
medalhas, cantil e bornal a tiracolo; pandeiro, espingarda de bambu.
Catarina (palhaça)
- roupa de tecido xadrez, de maneira a lembrar um palhaço.
Figuras - trajes
idênticos ao do mestre, porém mais pobres e mais simples.
Inicia-se o
folguedo com o rei seguido do mestre e do contramestre e acompanhado de meninos
que trazem grandes candeias de querosene, conduzindo o reisado. Atrás seguem os
dançadores de entremeios, com baús cheios de máscaras e trajes. Entoam
marchas ao som de violas, harmônicas, maracás, rabeca, pandeiros e vão em
demanda das casas onde celebram sua função.
Abrição da porta: O mestre
dirige a evolução do episódio por meio de apitos. Canta-se e dança-se com
volteios altivos e elegantes. O reluzir dos espelhos e das lantejoulas produz
grande efeito pictórico. Mateus vai aboiando dando uma nota de comicidade à
função. Terminam pedindo licença para entrar.
Entrada: Entram os tocadores,
criando animação, seguidos do rei, do mestre, do contra-mestre e das figuras,
portando-se todos com garbo e imponência. Cantam a peça da entrada e fazem
elogios ao dono da casa. Executam marchas e contramarchas em ritmo ligeiro e com
passos arrastados.
Louvação ao Divino: O reisado
dirige-se ao presépio ou à capela da casa visitada. Ajoelham. Cantam em
louvação ao Divino, ao som da música, mas os maracás são abafados com as mãos
para produzir um som surdo. Voltam à sala. O rei ocupa o trono. As figuras
colocam-se em duas filas. Realizam-se, então, os entremeios, os episódios de
guerra e as embaixadas. O mestre dirige a peça.
Chamadas do rei: Ao fim de uma
peça, ou de um entremeio, o rei levanta-se do trono, chama o mestre e com ele
cruza sua espada, em ressoantes entrechoques, enquanto estabelece com ele uma série
de embaixadas.
Peças de sala: Antes e depois
das embaixadas, são cantadas e dançadas as peças de sala. Estas são críticas,
comentários, sátiras sobre fatos ou acontecimentos ligados à vida de pessoas
ou do povo da região.
Danças: As danças são
numerosas e variadas, como, por exemplo, a dança do gingá com o entremeio da
mamãe velha.
Neste, como 1º passo, os
figurantes acocoram-se e balançam e remexem os traseiros para os lados;
2º passo (da máquila):
é um passo também exibido nos guerreiros e caboclinhos. Sua execução é
muito bonita e consiste num pequeno pulo, seguido por cruzamento das pernas, com
balanços alternados do corpo para os lados; 3º passo, costas com costas - os
dois cordões colocam-se de costas um para o outro e, em seguida, se ajoelham; 4º
passo, os figurantes sapateiam na primeira parte da cantiga, depois executam
evoluções sincrônicas de volta completa para um lado e a seguir para o outro.
Esta figura é seguida por ligeiros e também sincrônicos movimentos em que ora
apoiam nas pontas dos pés, ora nos calcanhares, finalizando com quatro rápidos
tropéis; 5º passo, o dançarino faz pião com o calcanhar esquerdo e de uma
volta rápida para o mesmo lado. Em seguida, apoiando-se sobre o outro
calcanhar, gira inversamente, imitando o movimento de um corrupio; 6º passo, os
dançarinos cruzam as pernas, ora a direita à frente da esquerda, ora esta última
à frente da direita, enquanto os pés se movimentam; 7º passo, idêntico ao
passo anterior, executado, porém, não de modo lento e compassado mas com
movimentos rápidos e quase pulados; 8º passo, consiste de sapateados,
apresentando muitas variantes com diferentes nomes, dos quais podemos citar os
seguintes: a) passo 40 ou marcha três tropéis, batidos sem os dançarinos saírem
de seus lugares; b) três tropéis, batidos como antes, porém sendo três para
a frente e três para trás; c) quatro tropéis para frente e quatro para trás,
de acordo com o ritmo; 9º passo, é a dança mais comum e consiste em dois
passos dirigidos para um lado e um pouco para a frente, e dois outros dirigidos
para o lado contrário e um pouco para trás, com requebros do corpo para os
lados aonde se dirigem os passos. O corpo vai virando continuamente, de modo que
os figurantes volteiam em movimentos independentes.
A Guerra: O mestre apita e o
primeiro embaixador atende. Cruza espadas e inicia embaixadas de guerra,
primeiro com o mestre, depois com o rei. Quando chega a vez do segundo
embaixador, as embaixadas já se tornam cansativas, repetindo-se as batidas de
espadas. Por fim, todos os figurantes, inclusive o rei e o mestre se empenham na
luta e o combate se torna geral.
As sortes: Todos os figurantes,
até o próprio rei, atiram seus lenços aos donos da casa e à assistência.
Estes os devolvem com dinheiro dentro. Recolhidas as sortes, o mestre apita e as
filas de dançarinos se afastam para os lados. Então começam os entremeios.
Estes são composições teatrais, jocosas, burlescas, como o bumba-meu-boi, o
cavalo-marinho, etc.
Encerrados os entremeios,
voltam as danças e cantorias de peças, sucedem-se as embaixadas até que sejam
apresentados novos entremeios. Note-se, de passagem, que os personagens dos
entremeios não tomam parte nas danças das embaixadas.
São os entremeios que dão
maior brilho a esta dança dramática e são tão apreciados que alguns são
apresentados mesmo fora de sua época como, por exemplo, (o famoso
bumba-meu-boi, o boi simboliza o do presépio) que, inicialmente, era o
principal entremeio do reisado e é levado agora também nas Festas Juninas.
Muitos destes entremeios,
deliciosos quadros independentes, revelam um espirito chistoso, outros se
inspiram em motivos míticos ou totêmicos, como o Zabelê.
Folharal: Nesta dança, o
personagem oculta a cabeça sob uma cabaça donde pendem longas folhas de
samambaia, traja um camisolão coberto de folhas e capim. Aumenta seu fantástico
aspecto quando os longos cabelos de samambaia esvoaçam nos continues rodopios
dados pelo bailarino.
Zabelê: O dançarino, disfarçado
num saco pintado, usando máscara com bico, dança e assobia, imitando o pássaro
jacu.
Curiabá: O dançarino imita o
macaco, se coça dançando e faz mil trejeitos engraçados.
Sapo Cururu: Agachado no chão,
o dançarino coaxa e dá estranhos pulos.
Alma, Diabo e Miguel: É um
entremeio que deixa a assistência suspensa e trêmula de medo. A alma, envolta
em lençol branco, desfiando um rosário, gemendo, aparece. Foge do Diabo que,
todo vestido de vermelho com rabo e garras afiadas, a persegue. Agarra-a mas
quando já a arrasta para o inferno, interpõe-se no seu caminho o anjo São
Miguel, geralmente representado por uma moça, de asas brancas e espada em
riste. Trava-se uma luta entre ele e o Diabo que é vencido. Há um forte
estouro de pólvora na sala e o Diabo aproveita a oportunidade para desaparecer
da cena. Suspiros de alívio na assistência.
Entre inúmeros outros,
podem-se ainda citar o Lobisomem, o Matuto e o Fantasma, o Capitão de Campo, o
Pescador e a Sereia.
E assim, os artistas que
representam os entremeios aproveitam cada embaixada para correrem aos baús por
eles trazidos no cortejo, de onde tiram febrilmente suas fantasias inesgotáveis.
Data de registro: meados do século
XX (~1950)
Textos extraídos de Terra
Brasileira -
www.terrabrasileira.net
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