Motorista de ônibus lança CD de Viola

A cena se repete há mais de duas décadas. Assim que deixa o ônibus na garagem de uma empresa de transporte coletivo em Guarulhos, na Grande São Paulo, o motorista José Pereira de Souza, de 53 anos, parte para seu outro emprego, que fica nos fundos de uma casa no Jardim Jandaia, bairro localizado na periferia da cidade. 

Sem horário para terminar o serviço, o motorista de ônibus José Pereira dá lugar ao violeiro Índio Cachoeira. Além de tocar, cantar e compor modas caipiras, ele aproveita o espaço para construir violas de 10 e 15 cordas, rabecas, violões, cavaquinhos e harpas. E é lá também que ensaia as canções próprias que farão parte do CD que será gravado a partir de julho.

“Quero ser conhecido como um músico de Guarulhos e levar para as pessoas as modinhas caipiras que são tocadas aqui”, afirma o artista, que é descendente da tribo indígena tapajós. Devoto de São Gonçalo, que é considerado o padroeiro dos violeiros, Índio Cachoeira gosta de compor músicas que retratam o campo, o cotidiano da cidade e a vida dos violeiros.

O primeiro contato com a moda caipira ocorreu por volta dos 13 anos, quando viu uma apresentação em uma festa junina em Junqueirópolis, no interior de São Paulo, sua terra natal. Ele aprendeu a tocar “de ouvido”, com base nas canções que ouvia no rádio de sua casa e na observação atenta aos violeiros. Construiu a primeira viola aos 15 anos, com os restos de um instrumento quebrado que foi todo remendado com pregos, porque seus pais não tinham dinheiro para comprar um equipamento novo. Ser autodidata na música é uma das características do artista: ele mesmo fez todas as máquinas que utiliza na sua “fábrica” de instrumentos.

As influências de Índio Cachoeira são João Pacífico, Teixeirinha, Inezita Barroso e as duplas Zé Carreira e Carreirinha e Tião Carreiro e Pardinho. É apreciador também de músicas folclóricas peruanas e bolivianas. Viúvo e pai de duas filhas, ele formou dupla com uma série de violeiros (Ditinho da Viola, Cascata, Tião do Gado e Cacique), com os quais se apresentava pelo prazer de levar para as pessoas a alma do violeiro caipira: “A gente era jovem e saía para tocar e voltava só no dia seguinte para casa”, lembra. Chegou, inclusive, a gravar discos com Tião do Gado, Cacique e, mais recentemente, com o músico Cuitelinho. “Não tem nada melhor na vida do que gostar de viola e ter o privilégio de mostrar isso para o público. Afinal, a modinha caipira está no pé do caipira e na cabeça do caboclo sertanejo”, sentencia.

CD – A gravação do primeiro CD solo de Índio Cachoeira é resultado do Fundo Municipal de Cultura de Guarulhos. O artista foi um dos selecionados pelo programa, que produzirá 3 mil cópias do seu trabalho. Parte dos CDs será distribuído para escolas públicas, bibliotecas e centros culturais do município. Além disso, o músico fará apresentações e oficinas de viola caipira gratuitas na cidade.


Fonte: www.violacaipira.com.br