DOAÇÃO DE ÓRGÃOS
O caipira entrou na venda, daquelas que têm de tudo, desde corda para poço até farinha de milho; moedor de café a chapéu de palha e botina. E pediu:
—Seu Manuel, dá uma pinga!
Na venda estava o funcionário da Secretaria da Saúde, trabalhando em campanha para orientar os lavradores sobre a importância da doação de órgãos para os hospitais, após a morte.
—Mode que o senhor trabalha mesmo, dotô?
—É uma pesquisa. Gostaria de saber se o senhor daria seus órgãos - depois de morrer – para os necessitados doentes dos hospitais.
—Pode dispôr, dotô. Despois da morte, num vai me ter serventia...
E o funcionário do Governo quis saber:
—Quais órgãos o senhor doaria? Sabe, é para a pesquisa.
E o caipira, solícito, alegremente:
—Ora, na certa daria os zóio, o figo e as úlcera.
—Úlceras? O senhor daria suas úlceras?
—Com sastisfação. E ficaria sentido se não aceitassem, mesmo eu lá no caixão...
—E o senhor pode me mostrar onde ficam suas úlceras?
O caipira, prestimoso, levantou a camisa e indicou a própria barriga.
De trás do balcão, seu Manuel, atento à conversa:
—Não seriam vísceras?
texto: Luiz Viola (http://violasertaneja.sites.uol.com.br)