Visto e ouvido naquela venda de portas abertas para o estradão:
 
No balcão da venda:
—Seu Manuel, dá uma pinga...
—Mas, quem vejo! Pedro Bento!
—Pois é, seu Manuel, vim tomar uma pinguinha...
—Pois não! Aqui está! Mas o senhor é o senhor mesmo, Pedro Bento? E o que me conta? E o Zé?
—É da estrada.
—Já ficaram ricos? Que me dizem?
—Só o Zé.
—Zé, rico?
—Milionário!
—E você?
—Estive entre os índios. Sabe que consegui até posto de comando entre eles?
—Cacique?
—E Pagé!
—Nossa! E agora?
—Estava com Zé Rôia e Chiquinho, campeando e tocando gado, mas não deu certo.
—Mas porquê, Pedro Bento?
—Aconteceu, sabe... o Zé Rôia.
—O que houve com ele?
—Caiu do cavalo.
—Nossa! E ele se machucou, Pedro Bento?
—Foi dentro do valo e a boiada pisou.
—Virgem Santa! E agora?
—Ficou eu e o Chiquinho, tocando a boiada.
—Então vocês estão viajando pela estrada?
—Nós, não, somente eu.
—Mas, porquê, homem?
—Numa tarde de rodeio, Chiquinho bebeu, não me obedeceu, pulou no picadeiro. Aí, num relance, até atirei na rês!
—Ê?
—A vaca tremeu, mas no pulo que deu - paf! - matou meu companheiro...
—E agora?
—Por onde eu passo o povo pergunta por nós três. Eu fiquei sozinho, tocando a boiada. Aí, parei com isso.
—É pena.
—E sabe do Tinoco?
—Nunca vem aqui na venda, é homem ocupado, mesmo com a idade. Mas é boa-gente: se quiser ir até ele, ele lhe recebe.
—É que me alembrei dele agorinha mesmo. E, cada vez que eu me alembro dele e do Tinoco, me dá uma tristeza, uma vontade de chorar, lembrando aqueles tempos que nunca mais hão de voltar. Dois caboclos bons e decididos, na viola, doloridos.
—É, seu Pedro Bento, eu também tenho tristeza, recordando das proezas, das viagens e motins. Viajamos mais de dez anos por esse rincão sem fim. Mas, porém chegou o dia, que Tinoco apartou-se de mim.
—Tem sabido dele?
—Fizemo a última viagem. Foi lá pro sertão de Goiás. Fui eu e ele e também foi o capataz. Viajemo muitos dias prá chegar em Ouro Fino. Depois da festa do divino, não vi mais ele.
—Soube que ainda toca viola cabocla, aquela que não era lembrada.
—E a Moreninha?
—Vive fazendo um juramento para ela, de nunca mais ter amor, prá viver, penar, chorando, por todo lugar que for.
—Pensei que ele tivesse pego a besta ruana, prá trazer a curitibana, que está no Paraná...
—Pois, é...
—Soube do Almir?
—Pegou o trem e foi do Pantanal rumo a Santa Cruz de la Sierra.
—É pena.
—Pena branca! É essa aqui que está no meu chapéu, veja. Achei-a de uma garça que deu meia-volta e sentou na beira do cais. Se soubesse que o Almir estava por aqueles lados... justamente quando entrei no Mato Grosso, dei em terras paraguaias. Foi terrível:  lá tinha revolução. Enfrentei fortes batalhas.
—É mesmo?
—É. Agora sabemos que o medo viaja também por todos os trilhos da Terra.
—E o que pretende fazer de hora em diante?
—Ir até Mococa, descansar. Conhece?
—Mococa e paraíso, assim, ó...
E Pedro Bento, colocando seu sombreiro, foi saindo da venda, acrescentando por fim:
—Somente ficar ouvindo o piar do inhambu nas tardes serenas.
—O xintãozinho?
—E Chororó.

texto: Luiz Viola (http://violasertaneja.sites.uol.com.br)